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Colocada: 02/12/07 Assunto: Empreste 25 dólares e acabe com a pobreza |
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Público - 29.11.2007, José Vítor Malheiros
Se quer ajudar a combater a pobreza do mundo saiba que o pode fazer sem sair de frente do seu computador. Um site chamado Kiva transforma-nos a todos em banqueiros dos pobres
Primrose Nansasi tem 24 anos, é solteira, vive em Kampala, no Uganda, e tem uma filha de seis anos. Primrose criou a sua própria microempresa e trabalha por conta própria: compra papel, imprime-o e vende o papel timbrado e fornece serviços avulso de secretariado. O negócio está a correr bem, mas não permite pôr dinheiro de parte para investir numa fotocopiadora que permitiria ampliar a sua oferta de serviços e os seus rendimentos.
Primrose não teria qualquer hipótese de contrair um empréstimo num banco comercial por falta de garantias, mas contactou uma instituição de microcrédito local, a Share an Opportunity, e apresentou-lhes o seu projecto, que foi aprovado.
25 dólares para começar
Só que a Share an Opportunity, uma instituição ugandesa criada em 1998, também não possui capital suficiente para financiar todos os projectos que lhe são apresentados e, por isso, encaminhou o pedido de Primrose para o Kiva.org, um site que é uma plataforma online de angariação de microcrédito.
O projecto de Primrose Nansasi foi apresentado no site www.kiva.org, acompanhado de uma foto da ugandesa sentada ao seu computador, no dia 17 de Novembro. O empréstimo pedido era de 1175 dólares (790 euros) para comprar a fotocopiadora, papel e outros equipamentos. Ao fim de poucos minutos, o projecto recebia a primeira fatia do financiamento: James, um músico californiano, emprestou 25 dólares. Passado pouco tempo, Rich, um consultor de Illinois, juntou os seus 25 dólares. Seguiu-se-lhe George, Myles, John, depois um doador anónimo do Dubai, Michael da Suécia, Kaye e Jude da Austrália, Peter e Becky do Canadá...
Passadas poucas horas, trinta micro-investidores de todo o mundo tinham coberto o empréstimo de Primrose. O dinheiro tinha sido transferido online para o site Kiva pelos emprestadores - através de cartão de crédito - que o transferiu para o Share an Opportunity, que o entregou a Primrose.
Primrose comprometeu-se a pagar o seu empréstimo em prestações mensais ao longo de oito meses. E cada um dos emprestadores verá os pagamentos cair na sua conta-corrente do Kiva, podendo emprestá-los de novo ou recuperar o dinheiro.
O site que torna isto possível, Kiva (a palavra significa "acordo" ou "unidade" em swahili) foi criado em finais de 2004 por Matt Flannery, um programador da empresa americana TiVo e pela sua mulher Jessica, para ajudar a combater a pobreza no mundo. Hoje, Matt é o CEO de Kiva.org, uma organização sem fins lucrativos e cujos custos de funcionamento são igualmente cobertos por dadores - quando se empresta dinheiro a um projecto há um link que permite fazer doações suplementares ao próprio Kiva.
Entre os apoiantes do site contam-se empresas como a PayPal (um serviço de pagamentos online que gere todas as movimentos financeiros do Kiva), o YouTube, Google, Yahoo!, Microsoft e MySpace.
Linhas e sementes
O grande achado do Kiva é a conjugação entre a acção global da Internet, capaz de facilitar a doação (perdão, empréstimo) por parte de pessoas em todo o mundo, e a acção local dos seus 74 parceiros locais. O Kiva é apenas uma plataforma online e não pode garantir o funcionamento de todos os parceiros locais, mas submete-os a auditorias e avalia a sua reputação (1 a 5 estrelas) com base no seu historial - já houve alguns que foram mesmo expulsos da parceria devido a práticas duvidosas.
Até hoje, o Kiva já emprestou um total de 14 milhões de dólares (uma parte pode já ter sido reemprestado), oriundos de mais de 140.000 emprestadores de todo o mundo, que alimentaram mais de 22.000 projectos. O valor médio dos projectos é de 630 dólares, mas também há quem peça 25 dólares para comprar ferramentas, 250 dólares para comprar tecidos, linhas e botões e começar um negócio de costureira ou 300 dólares para comprar sementes e lavrar um campo.
Como na maior parte das operações de microcrédito, a taxa de reembolso é elevada (99,8 por cento) - ainda que algumas das prestações possam chegar atrasadas -, mas o Kiva avisa prudentemente os emprestadores que o desempenho passado não garante o desempenho futuro e diz que quem empresta deve estar disposto a correr o risco de perder o dinheiro.
O aval de Clinton
Nos últimos tempos Kiva tem tido um crescimento explosivo, a que não são estranhos o número crescente de artigos na grande imprensa internacional e referências na televisão. O jornalista Nicholas Kristof publicou uma reportagem em Março, no New York Times, contando a sua visita a dois empresários de Cabul, um padeiro e um mecânico, a quem se apresentou como um dos seus banqueiros - tinha emprestado 25 dólares a cada um através do Kiva. Kiva já apareceu nos grandes talk shows americanos, como Oprah, mas o que lançou o site para um novo patamar de visibilidade foi a sua inclusão no livro Giving, de Bill Clinton, como um dos exemplos de como a solidariedade mundial pode combater a pobreza e promover a paz e o entendimento usando a tecnologia. Clinton falou de Kiva durante as suas tournées de promoção do livro e foi a fama. |
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